Vozes na ocupação: sociabilidades, envolvimentos e sentidos de (in)justiça nas escolas públicas do estado do Rio de Janeiro

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Ubirajara Santiago de Carvalho Pinto

Universidade Estadual do Norte Fluminense

 

A pesquisa dedica-se a compreender como se mobilizam os ocupantes das escolas secundárias públicas do Rio de Janeiro, no movimento que se deu entre março e junho de 2016, na vanguarda da greve do magistério estadual do mesmo ano. Parte-se de uma pesquisa de campo com duração diferencial nas ocupações de 4 escolas públicas do Rio de janeiro e do acompanhamento situado dos eventos mobilizados à volta das ocupações: atos públicos, audiências, intervenções de outros agentes e outros fazeres implicados na “ação coletiva” real. O quadro teórico da sociologia pragmática deu o tom da investigação. Essa abordagem se caracteriza por uma pluralidade de perspectivas cuja “unidade” pode ser reputada ao estudo das competências ordinárias de que dão prova as pessoas nas mais diversas situações.

Neste trabalho, assumem importância central os estudos de Boltanski e Thévenot, que facultaram novas abordagens sobre as atividades críticas dos atores nas sociedades “moralmente equipadas” que são as contemporâneas. Em especial, são mobilizados os conceitos de regime de justificação e de ação no plural, os quais permitem descrever o instável e plural trabalho de constituição das arenas público/proximais das ocupações das escolas e, ao mesmo tempo, as competências e fazeres exigidos na conformação da comunalidade das ocupações. Em consonância com estes e outros autores as “comunidades políticas” das ocupações são observadas e analisadas como uma “prova”, tanto de sua publicização quanto de sua duração no tempo.

 De igual maneira, as análises se valeram do diálogo, fortalecido em 2017 durante o doutorado sanduíche em Lisboa, com as pesquisas e os pesquisadores do grupo Pragmaticus ligado ao CICS.NOVA. Os encontros do grupo e a atividade crítica favoreceram a maturação de elementos, ainda que perfectíveis, para uma sofisticação das análises concernentes à escola, à socialização política contemporânea e os envolvimentos em causas públicas.

Neste quadro, os três tópicos que figuram no título são amplamente analisados no sentido da “reconstituição” do espaço crítico das ocupações das escolas. Em primeiro lugar, examina-se o vocabulário de motivos das ocupações e suas razões de primeiro plano: os critérios de justiça plurais avocados na denúncia das injustiças identificadas às situações e às condições escolares.

Em seguida, examina-se os múltiplos envolvimentos, tensões e exigências das atividades de cohabitação da escola: o instável trabalho de conformação do comum, identificado pelos próprios atores como condição do protesto. Na sequência, continua-se a análise e descrição dos múltiplos envolvimentos pelos quais a “ação coletiva” se faz, enfatizando-se os envolvimentos em proximidade/familiaridade. A amizade, a sexualidade e as sociabilidades juvenis apontam para a proximidade dos laços sociais na ocupação e tensões com o envolvimento cívico em curso. A este respeito, há uma miríade de formas pelas quais a expressividade e a atividade política se dão: Rap, Saraus, Grafite, Teatro, Música, entre outros.

Por fim, revela-se a capacidade dos jovens de interrogar as condições de sua experiência estudantil e apontar as deficiências da escola, ao mesmo tempo em que se evidenciam as dificuldades colocadas à sua própria autonomização. Ressalta dos ajuizamentos e envolvimentos escolares que vem à tona nos relatos dos estudantes e nas situações das ocupações a complexidade da escola em sua dimensão de participação pública e cotidiana: os bens em jogo são sempre plurais. A escola é uma arena público/proximal que implica a cohabitação e a copresença, tornando ainda mais difícil a complexa gestão do reconhecimento de uns e outros na sua “comunidade política”.

Doutoramento em Sociologia Política

Universidade Estadual do Norte Fluminense – Centro de Ciências do Homem

 

Autor: Ubirajara Santiago de Carvalho Pinto

Orientador: José Manuel Resende

Orientador no estágio em Lisboa: Bruno Dionísio

Data: 18 de abril de 2018

Júri:

Doutora Jussara Freire, Universidade Federal Fluminense;

Doutor Bruno Dionísio, Universidade Nova de Lisboa;

Doutor Roberto Dutra Torres Junior, Universidade Estadual do Norte Fluminense;

Doutora Manuela Vieira Blanc, Universidade Federal do Espírito Santo;