Socializações de jovens professores nas Licenciaturas em Música do Paraná/Brasil

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Paula Alexandra Reis Bueno

Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FeUSP

 

Maria da Graça Jacintho Setton

Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FeUSP

 

O objetivo da pesquisa foi verificar a potência das Licenciaturas em Música em ressocializar o indivíduo em sua formação musical. Propôs-se a verificação de como esta instância socializadora sanciona a composição do habitus e a construção identitária de jovens professores de música. O termo ressocializar foi utilizado no sentido de mencionar processos socializadores que acontecem ao longo da vida (DUBAR, 2005) emancipando-os da infância e conectando-os as mudanças sociais, ou seja, a construção de mundos vividos, que podem ser desconstruídos e reconstruídos ao longo da existência.

O estudo esteve vinculado ao curso de Doutorado em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, sendo orientado pela professora Doutora Maria da Graça Jacintho Setton; e coorientado pela professora Doutora Helena Carvalho, com vínculo no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL).

Considerando que a música pode ser um instrumento de comunicação entre o universo de subjetividades e da objetividade material que rodeia os indivíduos (SETTON, 2009), voltou-se para os jovens professores de música, estudantes e posteriormente egressos das universidades/faculdades de Licenciatura em Música do Estado do Paraná, região sul do Brasil, na perspectiva de entender como essa matriz socializadora – a Licenciatura em Música – participou nas edificações de suas identidades profissionais, ou seja, qual sua eficácia na gênese da composição das disposições de habitus dos jovens licenciandos. 160 (cento e sessenta) indivíduos foram investigados na primeira fase (2015), os quais eram estudantes das séries finais do curso. Destes, dezessete indivíduos foram selecionados para uma entrevista em profundidade, concretizada na segunda fase do estudo (2017).

Foi possível aferir que as instituições contribuíram para a redefinição de posicionamentos acerca dos produtos musicais. Experiências foram ressignificadas e outras novas experiências vividas no contexto do Ensino Superior.

Aplicou-se, pois, dois olhares para o fenômeno: o primeiro, ocupou-se dos gostos e das práticas culturais dos estudantes dos cursos de Licenciatura em Música; o outro olhar, tratou das variações intraindividuais dos sujeitos da pesquisa.

Uma análise estatística descritiva permitiu aferir o perfil dos indivíduos, evidenciando um grupo de jovens, homens, notadamente de classe média, com gostos musicais ecléticos, composto de gêneros eruditos, e também populares, como por exemplo, o choro, a bossa nova, o rock, o gospel, a música sertaneja, a caipira, entre outros estilos musicais.

Destacou-se que os indivíduos se encontravam envolvidos também com outras práticas de cultura, como teatro e cinema, por exemplo. Mas, encontravam-se especialmente envolvidos com o universo musical, por meio de práticas bem definidas dentro desse campo da cultura.  Todos tocavam ao menos um instrumento musical e desenvolviam diversas atividades na área da música, como participação em orquestras, bandas, conjunto, corais e grupos de pesquisa em música. O envolvimento com o universo musical aconteceu desde a tenra idade.

Tendo obtido um mapeamento das principais características do grupo investigado, procedeu-se, conforme a orientação de Carvalho (2017) à Análise de Correspondências Múltiplas (ACM),  em articulação com Análise de Clusters, sendo possível identificar, numa primeira fase perfis (através de  associações  entre as múltiplas variáveis categorizadas) e, posteriormente, agrupar em tipos os indivíduos, de acordo com os perfis configurados pela ACM. Foi possível a obtenção de cinco tipos: 1) os Consumidores Culturais, 2) as Culturas de Saídas, 3) o Culto à Música, 4) as Saídas Restritas e, 5) a Cultura Tecnológica. A caracterização dos tipos foi importante para verificar regularidades e variabilidade nos gostos e práticas culturais e o papel das universidades nesse processo.

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Vale salientar que o perfil Cultura Tecnológica foi o que obteve associação com o maior número de instituições, demonstrando que as novas sensibilidades advindas das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), têm se constituído em um advento socializador de abrangência global, criado e recriado a cada nova geração. Concordando com Martín-Barbero (2001), as tecnologias geraram novas sensibilidades e formas de ser e estar no mundo. Esta questão também foi confirmada na etapa qualitativa do estudo, em que os indivíduos relataram assistir videoaulas e pesquisar músicas pelo YouTube, compor playlists e buscar cifras no site CifraClub.

A segunda etapa analítica teve um processamento de caráter qualitativo, e permitiu encontrar pluralidades de formas de socialização no mundo contemporâneo, que promoveram a construção de identidades com disposições híbridas de habitus, forjadas a partir de diversas matrizes de cultura e em interações humanas significativas (SETTON, 2016).

As trajetórias de vida foram marcadas pela presença da música, em situações permeadas de afetos, que colaboraram para a construção de uma linguagem na área. Essa linguagem foi sendo aprimorada a cada fase da vida, num tempo vivido, à medida que os acontecimentos permitiram condições de possibilidades.

A análise das falas revelou quatro dimensões do processo socializador, que se encontraram interconectadas e presentes nos cinco perfis mapeados.

A primeira dimensão, denominada: “Do Afeto à Linguagem Musical”, revelou emoções e afetos participando da construção das subjetividades dos estudantes. Brincadeiras nas latas de tinta do pai, no piano da mãe, tardes nos braços do avô assistindo concertos na TV, dentre outras falas, remeteram ao período da socialização primária dos indivíduos. Na adolescência, lembranças de bandas com os colegas, as apresentações da fanfarra, o convite para ingressar a orquestra revelam a importância dos espaços secundários da socialização. Diversas situações afetivas promoveram o contato e o aprendizado com uma linguagem formadora, material e simbólica, expressa na música.

Na segunda dimensão, tal aprendizado da linguagem musical foi desenvolvido num “Tempo” vivido, contínuo, exigindo dedicação, envolvimento e até sacrifícios. Nas entrevistas foi recorrente o depoimento de que suas práticas eram frequentemente permeadas por assuntos relacionados à cultura musical, construindo a possibilidade de uma maneira de ser e estar no mundo, comprometida com o universo musical. Homeopaticamente tais disposições foram sendo incorporadas sem que tivessem consciência deste processo. Aulas particulares, participações em ministérios de louvor da igreja, envolvimento em projetos sociais de música, convites para a formação de bandas, violão e voz no barzinho, atividades variadas e dispersas que asseguraram a escolha profissional no campo da música.

A terceira dimensão, denominada: “Os Contextos Sócio-históricos e as Condições de Possibilidades” revelou questões de características mais globais, assim como aspectos pessoais da existência de cada um. Evidencia-se uma constante rede de interações humanas, contextos culturais específicos com a emergência massificada do gênero rock, ou do sertanejo e as facilidades de armazenamento e uso do som. Todas as variadas características socioculturais desenharam configurações sociais propícias para aqueles que desenvolveram a propensão profissional no campo da música.

Por fim, a dimensão profissional, denominada  “Identidade Profissional: Professor(a) de Música”. Nesta aspecto, atos de pertencimento e ruptura foram encontrados, assim como foi revelada uma dinâmica de reconhecimentos recíprocos. Para o entendimento das dinâmicas da socialização profissional, articulou-se processos de formação, emprego e reconhecimento das competências pessoais.

Por meio de atos de atribuição e pertencimento – em transações objetivas de reconhecimento e subjetivas de continuidades e rupturas – as identidades profissionais dos sujeitos foram sendo construídas, com experiências e expectativas de um devir no campo da música e da educação musical.

As construções identitárias se deram a partir de diversas matrizes socializadoras, propiciando disposições híbridas de habitus (SETTON, 2016) envolvendo afeto, tempo e contextos favoráveis ao desenvolvimento de uma linguagem própria na área da música. Nessa dinâmica cíclica da construção do social, evidenciou-se os reconhecimentos recíprocos e as rupturas.

Num processo socializador contínuo, os indivíduos foram se construindo enquanto sujeitos, e se apropriando da linguagem da música, assim como de um vocabulário específico da área. Os indivíduos vivenciaram reconhecimentos, mas também interações objetivas de conflitos e de não pertencimento.

O universo simbólico da música, inserido num campo profissional, foi se desenhando a partir do contexto e da história de cada um dos agentes pesquisados. As formas de pensar e agir revelaram disposições de habitus específicas e um interesse genuíno pelo universo da música e da educação musical.

Se por um lado, observou-se o quanto estes indivíduos foram responsáveis pela construção de suas identidades como professores de música, detectou-se ainda a reconfiguração de seus campos de atuação, num dialético processo de construção e reconstrução do social.

Nesse contexto, a formação universitária evidenciou seu potencial socializador, possibilitando manutenções, transformações e rupturas de gostos e práticas de cultura. Os cursos de Licenciatura em Música corroboraram o sentimento de pertença ao universo da música e da educação musical, assim como geraram atos de atribuição com transações objetivas de reconhecimento e empregabilidade em escolas, instituições especializadas, grupos musicais e orquestras. Todavia, seria relevante destacar que não se observou apenas sinergias, ao contrário, houve algumas rupturas, como desligamentos da docência na área da musica, citado por dois dos entrevistados.

Relembrando os ensinamentos de Simmel (2006), os humanos, em suas interações, produzem e reproduzem a sociedade. Na perspectiva desse autor, os indivíduos exercem influências mútuas, determinações recíprocas e, por isso, se encontram conectados, e se constroem na realidade social, concretizando interesses e objetivos. De fato, o estudo dos processos socializadores admitem a dualidade de estruturas e mentalidades. Na acepção de Dubar (2005), as identidades sociais são produzidas pelas trajetórias, mas também são, sobretudo, produtoras da história futura.

Socializados a partir das diversas matrizes de cultura, social e historicamente situadas, num tempo vivido, e por meio de relações repletas de emoção, os licenciandos desenvolveram o conhecimento de uma linguagem simbólica, específica – da música, e da educação musical – e puderam construir-se enquanto professores e professoras de música.

Mais especificamente, é possível afirmar que as Licenciaturas em Música do Estado do Paraná foram capazes de promover uma percepção mais crítica e reflexiva acerca do universo musical, que implicou na manutenção, transformação e ruptura de gostos e práticas musicais.

Nesse sentido, um dos ganhos deste estudo consiste na oportunidade de evidenciar que os indivíduos participam dos processos de reavaliar escolhas e práticas. Ademais, revelou a negociação e a interdependência das instâncias de socialização.

Por fim, mas não por ordem de importância, a presente tese corrobora os estudos que demonstram a dualidade de forças entre estruturas e agentes sociais, entre as realidades materiais e subjetivas.

O estudo contou com defesa pública, ocorrida no dia 07/02/2018 nas dependências da FeUSP (Brasil), com presença da Doutora Maria da Graça Jacintho Setton, professora Titular e Livre Docente em Sociologia da Educação pela Universidade de São Paulo; Doutora Jussamara Souza, professora Titular ´do Departamento de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, doutora e mestre em Educação Musical pela Universität Bremen (Alemanha); Doutor Alberto T. Ikeda professor do Programa de Pós-Graduação em  Integração da América Latina da Universidade de São Paulo; Doutor Marcus V. Medeiros Pereira presidente da Associação Brasileira de Educação Musical; e Doutor Rodrigo P. Ratier professor da Faculdade Cásper Líbero.

 

Palavras-Chave: Sociologia da Educação. disposições híbridas de habitus. Sociologia da Cultura. Educação Musical. Licenciatura em Música.

 

Bibliografia

CARVALHO, H. (2017). Análise Multivariada de Dados Qualitativos. Utilização da Análise de Correspondências Múltiplas com o SPSS (2a ed.). Lisboa: Edições Sílabo.

DUBAR, C. (2005). A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. São Paulo: Martins Fontes.

MARTÍN-BARBERO, J. (2001). Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia (2a ed.). Rio de Janeiro: UFRJ.

SETTON, M. G. J. (2009). Reflexões sobre a dimensão social da música entre os jovens. Comunicação & educação, 16(1), 15-22.

SETTON, M. G. J. (2016). Socialização e Individuação: a busca pelo reconhecimento e a escolha pela educação. São Paulo: Annablume.

SIMMEL, G. (2006). Questões fundamentais da Sociologia: Indivíduo e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar.