Pioneirismo e singularidade de um percurso na área da Saúde Pública

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Paula Dias

Centro de Respostas Integradas Porto Oriental, Administração Regional de Saúde do Norte

 

Sem qualquer possibilidade de poder prever o que me ia acontecer, porque era um terreno profundamente desconhecido, tornei-me, de facto, ao concorrer ao lugar de técnica superior, Ramo Sociologia, do Centro Regional de Alcoologia do Porto, na primeira socióloga, na área da Saúde, em Portugal.

Durante o percurso académico, com um plano de estudos fortemente direcionado para a Sociologia Industrial e das Organizações, este contexto de trabalho não era sequer imaginável, pelo menos, para mim.

Como fui a primeira socióloga a ser recrutada para um serviço de saúde na área dos comportamentos aditivos e das dependências de substâncias psicoativas, e como se desconhecia totalmente, há 24 anos, o âmbito da minha atuação, o desafio foi construir, de raiz, esse papel, desempenhando funções em diversas áreas de atividade, destacando-se os trabalhos realizados no âmbito da atividade científica e de promoção da saúde, em permanente interligação com os profissionais de outras áreas disciplinares. Tendo em consideração que nada tinha ainda sido feito, até porque nem sequer se equacionava a presença de um sociólogo num serviço dedicado ao tratamento de pessoas com problemas ligados ao álcool, foi necessário “partir do zero” com a construção de uma base de dados global sobre a produção e consumo de álcool e seus problemas relacionados e um forte processo de análise desta informação. Propus-me também fazer a recolha, análise e tratamento de dados epidemiológicos e estatísticos no âmbito da alcoologia assim como foi gratificante orientar e coordenar estágios curriculares e profissionais nas áreas de Sociologia, Marketing, e Psicologia Social, resultando numa partilha bastante profícua de saberes académicos e profissionais, numa área sedenta de produção científica.

Após ter concluído o curso de Sociologia em 1990, no qual ingressei em 1986, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, candidatei-me ao Curso de Projetistas de Desenvolvimento de Recursos Humanos, com a duração de seis meses, com visitas de estudo a empresas estrangeiras (França, Itália e Espanha) durante 15 dias, e estágio profissional integrado na EDP- Eletricidade de Portugal, uma vez que projetava desenvolver a minha carreira na área da Gestão dos Recursos Humanos. Foi, inegavelmente, esta formação que estimulou a vontade de desenvolver trabalho na área da Formação.

A criatividade assumiu um papel determinante para outra das tarefas fulcrais que foi a elaboração de programas de prevenção dos problemas ligados ao álcool e de promoção de estilos de vida saudáveis.

Como não me sentia pedagogicamente preparada para exercer atividade nesta área, optei por adquirir competências fundamentais através do Curso de “Formação de Formadores”. Tive oportunidade de iniciar a minha atividade profissional na área da formação como Formadora em Marketing e Serviços Bancários, do Curso Geral Bancário e simultaneamente concorri ao lugar de docente universitária, na Escola Superior Artística do Porto em 1992, onde leccionei cursos de Arquitectura, Animação Cultural e Teatro e no Instituto Superior de Administração e Gestão em 1993, ficando responsável pela disciplina de Sociologia do Turismo.

Com o objetivo de ampliar a minha qualificação frequentei vários Cursos de Formação profissional, como o Curso de Diploma de Especialização em Políticas Públicas, o Curso de Gestão de Projetos (Certificação IPMA), o Curso de Conceção e implementação do Activity Based Costing em Instituições de saúde, entre outros.

A incorporação do saber sociológico tem-se revelado crucial. Apesar de exercer uma função cheia de ramificações internas, num trabalho sistemático de colaboração e multidisciplinaridade, em que a plasticidade tem de ser muito grande, tenho necessidade de recorrer diariamente a métodos e conhecimentos científicos para delinear um currículo formativo, que contribua decisivamente para alcançar a mudança de atitudes e comportamentos, pois é sobejamente consensual que são as condições de vida e de trabalho dos indivíduos que potenciam uma situação de doença.

À medida que foi aumentando a consciencialização de que os problemas relacionados com o consumo de álcool são um dos principais problemas de saúde pública, foi crescendo também a minha vontade de frequentar o Curso de Mestrado em Saúde Pública, organizado pelo Serviço de Higiene e Epidemiologia da Faculdade de Medicina, em parceria com o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto, com a redação de dois artigos intitulados “Social and behavioural determinants of alcohol consumption” e “Alcohol consumption in an urban population of portuguese adults”. Intensifiquei a minha incursão pela Saúde Pública ao inscrever-me como doutoranda do Curso de Epidemiologia e Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Santiago de Compostela, a decorrer atualmente.

Neste momento, exerço o cargo de Coordenadora da Unidade de Prevenção do Centro Respostas Integradas do Porto Oriental com a responsabilidade de conceber, negociar e monitorizar programas de prevenção, assim como de os implementar, ou seja, tenho a responsabilidade de dinamizar e monitorizar todas as atividades de âmbito preventivo, encetadas no território a que o CRI Porto Oriental tem que dar resposta. Compete-me, em primeiro lugar, promover a articulação entre os agentes envolvidos para que estes atuem na aplicação de programas preventivos e secundariamente na gestão dos mesmos.

O Centro de Respostas Integradas Porto Oriental, (CRI Porto Oriental) Unidade do Ex-IDT – com o processo de fusão com a ARS  em 2012,  dispõe de equipas técnicas especializadas e  multidisciplinares para as diversas áreas de missão dedicadas  ao tratamento, prevenção, reinserção e redução de riscos e minimização de danos no âmbito do consumo de substâncias psicoativas, dos comportamentos aditivos e dependências.

No desempenho da função de coordenadora destaco a versatilidade que a formação teórica em sociologia nos imprime auxiliando eficazmente na resolução dos problemas diariamente colocados, que passam pela conceção de programas multicomponentes para dar resposta aos pedidos das diversas instituições.

Na área da Formação, desempenho as minhas funções, essencialmente, na formação de pedagogos em Educação para a Saúde. Como socióloga coube-me a missão de integrar os procedimentos de desconstrução da ideia biologizante da doença, passando a incorporar o saber sociológico na explicação de impactos sobre a cidadania provocados pelos fenômenos endêmicos e epidêmicos, pelas políticas governamentais de educação, prevenção e promoção da à saúde nas comunidades, bairros e lares.

A execução de programas preventivos no âmbito do consumo de substâncias e dos comportamentos aditivos, implica a capacitação dos agentes interventivos, sendo fulcral o papel de uma socióloga, uma vez que a mudança de práticas e hábitos só é possível se forem considerados como práticas sociais. Na prática diária reitera-se a ideia de que o consumo de álcool e outras drogas é de facto, um fenómeno social, resultante das interações humanas, produto da vida em sociedade, como são igualmente outros acontecimentos

O que diferencia a socióloga de outra formadora da equipa multidisciplinar com que trabalho diariamente, é a capacidade de elucidar como o consumo de substâncias psicoativas e os comportamentos aditivos são efetivamente problemas de saúde pública devido aos problemas colocados pelo seu consumo abusivo.

Outra área onde exploro oportunidades de desenvolvimento de programas e projetos, é o contexto laboral. Os locais de trabalho apresentam excelentes oportunidades para a deteção precoce e intervenção dos problemas ligados ao consumo de substâncias psicoativas. São contextos de promoção da saúde dos trabalhadores, das suas famílias e da comunidade em geral, promoção que envolve necessariamente a componente da formação e informação como base do programa a implementar.

A escola é outro dos contextos privilegiados de intervenção preventiva e é nela que preferencialmente atuamos para promover competências e mudar comportamentos.

A saúde deixou de ser entendida como ação preventiva de uma determinada doença para ser compreendida como promoção da qualidade de vida, resultante de um complexo processo condicionado por diversos fatores, tais como a alimentação, justiça social, ecossistema, rendimentos e educação.

Graças a uma mudança de paradigma, assistimos à quebra de uma certa cultura médico-hospitalar, curativa e relativamente indiferente às implicações sociais da prática da saúde, e surgimento de uma cultura de promoção da saúde como um “processo que visa aumentar a capacidade dos indivíduos e das comunidades para controlarem a sua saúde, no sentido de a melhorar. Para atingir um estado de completo bem-estar físico, mental e social, o indivíduo ou o grupo devem estar aptos a identificar e realizar as suas aspirações, a satisfazer as suas necessidades e a modificar ou adaptar-se ao meio. Assim, a saúde é entendida como um recurso para a vida e não como uma finalidade de vida;”

Pese embora se contabilizem muitos ganhos nesta trajetória, a grande dificuldade que continua a fazer-se sentir é a coexistência de diversos processos de trabalho que funcionam sem se articular de forma adequada, sendo fundamental ampliar a qualificação dos trabalhadores que colaboram neste setor.

(Carta de Ottawa. In: 1ª Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde. Ottawa, Canadá; 1986 [acesso em 26 maio 2018]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/carta_ottawa.pdf ´