Para que serve um sociólogo? Experiências profissionais que comprovam a relevância da formação em sociologia

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Caroline Marques Gomes

Docente e Adjunta Técnico-Pedagógica da Direção Pedagógica da Escola Profissional Vértice

 

Para que serve a sociologia? O que faz um sociólogo? O que é a sociologia? Para quem faz sociologia fora do ensino superior e da investigação, estas perguntas são frequentes, difíceis e constrangedoras de responder para quem escolheu fazer sociologia a sua profissão. A profissão de sociólogo e as suas práticas têm, ainda hoje, infelizmente, pouca expressividade e visibilidade na sociedade. Embora os contributos e práticas da sociologia se estendam por distintos universos profissionais estes continuam sem expressividade e, consequentemente fragilizam a imagem desta atividade profissional.

A minha contribuição neste simpósio vai no sentido de dar visibilidade à importância da atividade profissional dos sociólogos, através de um testemunho e reflexão sobre a minha própria experiência profissional. Para quem faz sociologia há tanto tempo, o futuro não trouxe oportunidades, foram os sociólogos nos seus diversos contextos de intervenção que as foram conseguindo criar. As atividades que desenvolvemos, os cargos que exercemos, a imagem de sociólogo que construímos, e o próprio acesso à profissão foram oportunidades por nós impostas, criadas e desenvolvidas. Justificamos através da nossa intervenção a importância e a relevância da nossa profissão nos mais vastos universos profissionais. Criamos a necessidade da nossa contribuição dentro das organizações e instituições em que desenvolvemos a nossa atividade.

A minha experiência profissional decorre no domínio da educação e formação desde 2008, ano de finalização da minha formação académica em sociologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira Interior. Iniciei a minha experiência profissional no domínio da formação de adultos e de jovens através do desenvolvimento de metodologias e práticas de educação formal e informal; e da gestão, avaliação e monitorização de ações de formação e de tipologias de ensino diversificadas em prol da qualificação e formação. As primeiras experiências profissionais foram sendo desempenhadas sempre numa lógica de adequação e ajustamento entre os conhecimentos adquiridos e as competências exigidas a cada momento, de modo a impor e comprovar a relevância da minha formação académica. Destaco os contributos das aprendizagens adquiridas no âmbito da sociologia das organizações e da sociologia da educação.

Partindo destas experiências profissionais que desempenhei em mais do que uma organização, passei mais tarde a lecionar em cursos profissionais do ensino secundário a disciplina de sociologia que, pela primeira vez nesse estabelecimento de ensino, é realizado por um sociólogo. Procurei com esta experiência dar visibilidade e expressividade a uma disciplina que do ponto de vista curricular é ainda vista com pouca relevância, dado o predomínio da ideia da produtividade e utilidade do ensino nas escolas, sobretudo nas escolas com vias de ensino profissionalizante. Sobre os conteúdos programáticos definidos pelo ministério da educação nos referenciais de formação, procedi a adequações de modo não apenas a potenciar e a desenvolver a capacidade reflexiva e crítica dos jovens alunos face à sociedade, mas também a erigir uma disciplina com a capacidade de questionamento de algumas práticas, com estudos sociológicos para o meio envolvente (comunidade; autarquia; avaliação do projeto educativo da escola, etc.). Com o reconhecimento do trabalho feito e da contribuição e mais-valia da formação em sociologia na instituição enquanto docente, sou mais tarde, convidada pela direção pedagógica desse estabelecimento escolar a desempenhar funções pedagógicas, designadamente de direção de turma e de coordenação de curso e, posteriormente, para o cargo de adjunta da direção pedagógica. Trata-se de um estabelecimento de ensino tutelado pelo ministério da educação, onde a minha intervenção decorre no âmbito das competências da direção pedagógica.

As competências exercidas na área da liderança, avaliação, monitorização, gestão e conceção de práticas educativas consolidaram progressivamente a imagem e a importância da formação em sociologia na instituição. Esta última experiência profissional tem sido sem dúvida o desafio mais relevante que a minha formação académica me possibilitou no domínio profissional.

Embora sentindo alguma desconfiança em relação ao trabalho do sociólogo na organização escolar, dadas as responsabilidades que me foram incumbidas, fui expondo as especificidades e a relevância da intervenção de um sociólogo na educação, no sentido de desmistificar a ideia que ainda persiste: para que serve um sociólogo? Será que um sociólogo consegue liderar e mobilizar as lideranças de uma escola?

A minha intervenção passa por diferentes domínios, designadamente: i) liderança escolar (contempla tarefas como a elaboração e distribuição de horas letivas e não letivas pelo corpo docente; a delegação de tarefas no âmbito do trabalho de escola; a articulação, delegação, monitorização de trabalho junto dos diretores de turma e das coordenações de curso; em convocar e presidir o conselho pedagógico e os conselhos de turma e/ou equipa técnico-pedagógica e a conceção e planeamento de atividades curriculares e extracurriculares); ii) dinamização pedagógica (envolve atividades como a divulgação das boas práticas da escola; a articulação de trabalho com o serviço de psicologia da escola no âmbito do programa de educação para a saúde e na divulgação da oferta formativa da escola); iii) resolução de todos os assuntos de natureza pedagógica (como a gestão de conflitos e da indisciplina dos alunos; o determinar procedimentos de instauração de medidas disciplinares preventivas e/ou sancionatórias; o assegurar e controlar a avaliação de conhecimentos dos alunos; realizar práticas de inovação pedagógica e a promoção do cumprimento do plano de estudos); iv) elaboração dos instrumentos de regulação e gestão pedagógica (conceber e formular, sob orientação da entidade proprietária, o projeto educativo da escola, o regulamento interno, o relatório anual de atividades e plano anual de atividades); e iv) gestão pedagógica e administrativa (com a elaboração de candidaturas de cursos; a organização e sistematização da legislação e outros normativos relativos ao funcionamento da escola; e a administração das plataformas do ministério da educação).

Estas responsabilidades são desempenhadas com método, rigor, reflexão crítica e enquadradas pela recorrente problematização e questionamento das práticas educativas, com o objetivo de dar resposta aos problemas e desafios que se têm imposto ao ensino geral e ao ensino profissional, o que implica e continua a implicar constantes adaptações. É a formação em sociologia que permite avaliar recursos, redefinir métodos, reorientar a missão e o projeto educativo, analisar criticamente os problemas sociais e tomar consciência dos efeitos políticos e agir sobre eles.

A minha experiência profissional num universo tão específico como uma organização escolar permitiu que a sociologia fosse vista não apenas como uma área de conhecimento abstrata, mas com implicações práticas e contributos importantes para a vida das pessoas e da sociedade, sobretudo no autoconhecimento dos jovens e na capacitação destes. Talvez seja essa a melhor arte e ossos do ofício de um sociólogo fora do palco da academia.